Comportamento. O BLABLABLÁ

Revista Época

03 de junho de 2002

Em livros e sites, as mulheres comemoram o direito de ser burras, agressivas e falar mal dos homens.

Quando Bridget Jones, a personagem criada pela jornalista inglesa Helen Fielding, transformou-se em sucesso mundial no fim dos anos 90, havia esperança de que fosse apenas um surto passageiro. Não era. Em seguida veio a continuação - Bridget Jones : no Limite da Razão. Em lugar de perceber a impossibilidade de seguir vivendo com tanta burrice, a heroína continuou tropeçando no cérebro e, ao que tudo indica, partiu para a Tailândia com um advogado bem-sucedido, ele sim, inteligente e dono de um projeto de vida. Um final à altura da aristocracia britânica Barbara Cartland, a recordista do romance melado.

O primeiro da série vendeu 100 mil exemplares no Brasil, onde foi lançado em dezembro de 1998. Mais de 4 milhões no mundo. Está na 19º edição pela Record e na lista dos mais vendidos. O segundo supera a marca dos 50 mil em um país com leitura média de 1,2 livro por ano per capita. Com estréia em 2001, o filme faturou US$ 280 milhões nas salas de cinema do mundo todo.

Se daqui a 100 anos alguém se debruçar sobre os ícones dessa passagem de século, vai constatar que Bridget Jones é a grande heroína feminina. E a mãe de uma prole de personagens da mesma estirpe cabeça oca. Como Becky Bloom, uma consumidora compulsiva às voltas e a escassez de namorados, Tasha Harris, outra vítima da metamorfose de princípios em sapos-de-boi, e Libby Manson, mais uma flor feminina assolada pelas intempéries na busca de um marido rico.

Por mais que tentem vender Bridget - e sua genealogia - como uma caricatura bem-humorada da balzaquiana moderna, o faro de milhões de mulheres do pós-feminismo identificarem-se com uma londrina burrinha, alienada, dependente de livros de auto-ajuda e "homens errados " é, no mínimo, intrigante.

As mulheres de 30 anos de Honoré de Balzac batiam-se contra as paredes labirínticas do matrimônio do século XIX. As balzaquianas literárias do século XXI querem casar-se quase a qualquer preço.

Saudada como a desglamourização da heroína, a geração de Bridget promete às leitoras que, com todos os defeitos de uma comum mortal, também podem ser divas. O paradoxal é que, ao retirar as exigências inerentes à deusa, o que sobra não é uma mulher densa, complexa, mas uma garota de 30 anos, profunda apenas nos decotes usados para impressionar o chefe. Bridget Jones e sua linhagem são apenas meninas "divertidas ". E divertimento leve é o que sempre se esperou das mulheres.

O século XIX pariu Ana Karenina, de Leon Tostói, e Emma Bovary, de Gustavo Flaubert, heroínas muito longe da perfeição, carregadas de humanidade na busca de identidade e amor. Gerou a Elizabeth Bennet de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, fonte de inspiração para o best-seller de Helen Fielding. Terminou com Nora Helmer, de Henrik Ibsen, dando adeus ao marido e aos filhos para lançar-se na descoberta de um novo lugar.

"Eu porém já não posso pensar pelo que diz a maioria nem pelo que se imprime nos livros. Preciso refletir sobre as coisas por mim mesma e tentar compreendê-las ".

As primeira décadas do século XX forma marcadas pelas mulheres selvagens de D.H.Lawrence. O período que começou apedrejando Lady Chatterley - a imprensa definiu a obra como "latrina " - terminou.... louvando Bridget Jones como a encarnação da mulher comum. Ou "uma mulher como todas nós ", no marketing das editoras. Mas nós quem, cara-pálida?

Heroínas como Bridget e cia. Sempre estiveram à disposição da cabeceira das mocinhas. As avós de Bridget, Becky, Tasha, Libby e tantas outras provavelmente devoravam as obras de A Biblioteca das Moças quando precisavam suspirar. Ainda hoje as bancas de revista são recheadas de títulos do gênero vendidos a preços populares. A diferença, no caso, é tratar a reciclagem da heroína-clichê como algo inovador. Mais :como a encarnação de uma geração de mulheres, Pior: a julgar pelo sucesso , Bridget e suas clones conquistaram legitimidade para representar as ocidentais de 30 anos, solteiras, urbanas, de classe média.

O fenômeno traz uma curiosidade a mais: a maioria das autoras são jornalistas que descobriram uma carreira mais promissora. Profissão mulher comum. Tão comuns que se tornam especiais, na singularidade possível nestes tempos: a fama. Surgem a toda hora, na Europa e nos Estados Unidos, novas escritoras que confessam Ter se inspirado em Bridget, mas prometem ir "muito mais além ", como apontou em abril a jornalista Empar Moliner, do diário espanhol El País.

Ainda neste ano, a Editora Record vai lançar pelo menos mais sete livros nessa linha, a começar por Quatro Louras, de Candace Bushnell, a mesma do seriado da HBO Sex and the City, e Poesia Pura, de Binnie Kirshenbaum. As quatro louras são Janey, Winnie, Cecelia e Minky, "mulheres em busca de algo mais para suas vidas num mundo que parece as colocar o tempo todo à prova ". Poesia Pura é a vida de Lila Moscowitz, uma poeta de "língua afiada, atitudes controversas e voraz apetite para o sexo ".

As americanas fazem companhia à espanhola Lucía Etxebarría, autora de Amor, Curiosidade, Prozac e Dúvidas ( Ática, 1999 ) e Nós, Que não Somos como as Outras ( Objetiva, 2000 ), ao injetar mais sarcasmo e menos indulgência ao universo das mulheres de "30 e poucos anos "que tomou conta da literatura. No caso de Candace, suas louras são ambiciosas e infelizes, a própria carne da sociedade assentada sobre o cinismo e a banalidade em busca da fama que, descobrem tarde, é apenas mais uma rede de segurança furada.

Ao final, a autora sucumbe com a última loura, justamente a escritora solteira que ganha a vida filosofando sobre mulheres, A seu lado no avião, o príncipe encantado perfeito : "Ele era alto, cabelos escuros e magro e estava usando calças Prada. Tinha todos os cabelos e um rosto inteligente e interessante. Ele abriu uma revista Forbes. Agora é meu tipo, pensei (...) O que é que eu queria? A história. Eu queria a história. Queria a grande, bacana, inspiradora história sobre uma mulher solteira que tinha uma carreira, que ia a Londres a trabalho e encontrava o homem de seus sonhos e casava com ele. Ela tem o grande anel e a grande casa e as crianças adoráveis e vive feliz para sempre ".

No Brasil, quando as editoras querem valorizar uma lançamento, dizem : "É tipo Bridget". É o caso de Divas no Divã, da atriz Chris Linnares, em cartaz nos palcos paulistanos. Publicado em abril pela Editora Gente, cumpre fielmente nas 131 páginas a promessa da orelha: "Este livro narra a história de uma mulher bem-sucedida profissional e financeiramente, porém muito só e insatisfeita, com baixa auto-estima, mas que alimenta o desejo secreto de ser igual à Diva, personagem irresistível dos filmes românticos. Na ânsia para que o desejo se torne realidade,ela encontra o Personal da Felicidade ".

O exemplo nacional mais famoso no quesito de menina para menina - sim, porque é uma marca do gênero Ter passado dos 30 mas seguir adolescente - é o Almanaque 02 Neurônio. Lançado no fim de fevereiro, em dois meses a edição de 6 mil exemplares esgotou-se. Segunda incursão literária das jornalistas Jô Hallack, Nina Lemos e Raq Affonso, o livro conta em formato de crônica as aventuras de uma "garota "moderna na faixa dos 30 anos em busca da heroína tupiniquiim : "mulher superior ". Vende-se como humor, o que teoricamente o salvaria de ser levado a sério. ""Não se levar a sério ", aliás, é outra marca da geração. E uma "tendência "citada em dicionário como pertinente ao gênero feminino.

A "mulher superior "também é alienada, mas esse jeitinho tonto de ser é uma "fofura "e no fundo ela é inteligente. Resolveria os problemas do mundo numa "partidinha de War ", está sempre no vermelho porque não resiste a um shopping e adora se reunir para "fofocar e comer delicinhas ". Deliciosamente inepta para as tarefas domésticas, "levar bolo da diarista " é das piores catástrofes depois de um "pretê não ligar no dia seguinte ". A mulher superior é cool, é hype, é tudo de bom. Além de doidinha pelo seriado americano Friends e por diminutivos.

Desde o primeiro livro, Almanaque para Garotas Calientes ( 1999, Conrad Livros), as autoras apregoam : "Ainda não sabemos se somos feministas.... Só sabemos que não queimamos sutiãs, mas achamos que a mulher tem direito de agarrar os homens e de ter barriga de cerveja !!! " Em "Minha lista preferida de traumas infantis ". Jô Hallack.

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