Ler em ônibus se torna um hábito cada
vez mais comum para quem tem uma rotina
apertada
O projeto cultural Leitura no Ônibus, do escritor Luiz Carlos Albuquerque, vem sendo desenvolvido há dois anos na cidade de Porto Velho, em Rondônia. A idéia é levar informação e cultura para os usuários do transporte coletivo da capital nortista. São cinco mil exemplares semanais, impressos uma folha de A4 dobrada ao meio, que contêm, em pequenos capítulos, crônicas, contos, versos ou um pouco da história do estado. O folhetim, distribuído gratuitamente, foi a receita encontrada para tentar preencher a falta de hábito de leitura entre os brasileiros.
Aqui em Curitiba não há projeto semelhante, sendo que a média de leitura entre os paranaenses acompanha a triste realidade nacional. Segundo uma pesquisa realizada no início deste ano pelo instituto Pró-Livro, os brasileiros costumam ler 4,7 livros por ano. Nos estados do Sul, essa média sobe para 5,5 livros, o que não deve ser motivo de grande orgulho, pois a média de leitura entre os europeus oscila entre 8 e 10 livros por ano.
Apesar do baixo índice de leitura, não foi muito difícil encontrar curitibanos lendo livros dentro dos ônibus. Talvez esse hábito esteja aumentando nos últimos anos devido à correria da vida moderna, que não possibilita muito tempo de leitura em horários vagos, no sofá de casa.
A professora aposentada Helena de Souza Cordeiro mora no Cabral e toda semana utiliza o transporte coletivo para visitar a filha que mora próximo ao Terminal Santa Cândida. A aposentada, que estava lendo um dos capítulos finais do livro 1808 (do escritor Laurentino Gomes) quando nos encontramos no expresso, conta que sempre lê alguma coisa durante o trajeto. "Desenvolvi o hábito de leitura depois que me aposentei, foi uma boa maneira de preencher o tempo. Adoro ler no ônibus porque não sinto o tempo passar", diz Helena. "Não tem perigo de perder o ponto porque bastante gente desce no terminal", brinca a aposentada.
Outra assídua leitora em ônibus é a estudante de pedagogia Ana Luísa Minucci. Quando sentei ao lado de Ana no Inter 2, ela estava lendo um exemplar do livro Cinderela de Saia Justa. A estudante, que costuma ler pelo menos um livro por mês, acredita que existem vários fatores que agravam a falta do hábito de ler. "O alto custo dos livros, a falta de espaços públicos de leitura e bibliotecas nos bairros criam uma barreira", enumera. Ana completa que, apesar de todas as dificuldades, a justificativa de que falta tempo é inválida. "Sempre dá para ler, por mais que a vida seja corrida. É possível ler algumas páginas dentro de um ônibus ou antes de dormir, basta querer", afirma.
Quais são os mais lidos?
O sub-título do livro de Ana era 'Para quem não vive um conto de fadas mas merece ser feliz'. Quando indaguei se ela acreditava que, hoje em dia, o livro de auto-ajuda é menina dos olhos dos leitores contemporâneos, Ana fez questão de afirmar que o livro escrito por Chris Linnares não é desse gênero. "O título sugere ser de auto-ajuda, mas na realidade é enquadrado no setor de psicologia", afirma. "Acho que existe sim uma tendência das pessoas lerem mais auto-ajuda, é uma forma mais barata de ir ao analista", brinca.
O estudante de Administração Pedro Magalhães não concorda com a opinião de Ana. Pedro, que estava com um exemplar do livro O Segredo no Interbairros 2, acredita que as pessoas lêem mais best-sellers. "As pessoas compram os livros que estão na lista dos mais vendidos porque acham que essas são as melhores obras, independente de ser auto-ajuda, ficção ou biografia", explica. "Claro que o setor de auto-ajuda cresceu muito nos últimos anos, mas não acredito que sejam as obras mais lidas. A febre do Harry Potter e o sucesso de Dan Brown (autor de Código da Vinci e Anjos e Demônios) provam isso" finaliza.