Ela assina o texto. O da peça e o do livro. Atua num monólogo de quase hora e meia. No palco, é lanterninha, é diva, é mulher comum da grande metrópole. Chris Linnares está acostumada a passear por áreas distintas com facilidade de quem vai de um cômodo a outro - muito provavelmente porque ela decidiu fazer de sua vida o que sua personagem em "Divas no Divã" concluiu com muito custo: não se deve podar nenhum sonho. Autoconhecimento, busca de uma verdade interior, valorização da auto-estima. Temas densos? De jeito nenhum: motivos de riso. No palco tanto quanto no livro, sua comédia é bem comportada - não apela para palavrões e deixa de lado a possibilidade de "tirar o sono" dos outros. Um humor em nada apelativo, que a artista frisa ser o tipo que gosta de fazer. E já que é de sentimentos e sensações que se fala, do humor e da falta dele, Chris Linnares escolhe como recorte o cotidiano feminino, as angústias da mulher comum do terceiro milênio que alcançou tudo que achava que devia para ser feliz e simplesmente não é. Levantando a bandeira do "encontre o seu caminho verdadeiro", a atriz é ao mesmo tempo a prova de sua teoria, já que tem materializado o que muitos espetáculos de grandes patrocínios ou nomes famosos da mídia apenas almejam: está em cartaz há dois anos com casa cheia, recebendo convites para levar seu texto e personagem para outras mídias - de livro a programas de televisão e para outros continentes.
Livro e peça de teatro... Como começou a saga do "Divas no Divã"?
Desde os 17 anos já fazia teatro, trabalhei no Circo Grafite - Núcleo 2, que era coordenado por Rosi Campos. Só que tem um outro lado meu, até porque minha mãe é educadora, que foi ter sido criada para gostar do comportamento humano. Foi quando decidi parar um pouco o teatro e estudar Psicologia. Na faculdade, passei a me interessar pela auto-estima, a querer saber como ela influenciava a vida das pessoas. Comecei a dar cursos e palestras sobre o tema e, já com meus 21 anos, tinha um programa de rádio chamado "Histórias de Sucesso", em que as pessoas me ligavam e contavam relatos de vida - eram pessoas simples, comuns, que contavam histórias do tipo "como ajudei meu filho a sair das drogas". Passei a me apaixonar por essas histórias, pela capacidade das pessoas estarem transformando suas vidas. E, num belo dia, depois de estar totalmente afastada do teatro, um amigo me perguntou por que eu não voltava para o teatro. Eu fale: "se eu colocar no papel, você não tem noção do que sai, pelo que já ouvi desde a rádio, as palestras e os relatos...". Foi quando eu sentei e escrevi a comédia "divas no Divã". Mas quando eu queria estrear aqui em São Paulo, ninguém queria me dar espaço, a gente nem entrou...Às vezes, muitos artistas não se animam a entrar em cartaz porque acham que só consegue sucesso peça que tem ator global", que está na mídia, e o "Divas" provou que não. Quando vou buscar patrocínio e ouço "ah, mas ela não é famosa", eu levo isso numa boa, porque tenho certeza de que as coisas vão acontecer.
No espetáculo, além de interpretar, você canta, dança, literalmente sapateia no palco. Todos esses dotes foram desenvolvidos especialmente para a peça?
Fiz oito anos de balé, fiz curso de sapateado e faço até hoje. Já o canto foi só no quadro do "Divas" mesmo. Adoro compor, mas não sou cantora. Um dia mostrei uma música para minha diretora, Dirce Helena, e ela disse para pôr no espetáculo. Eu respondi que não tinha coragem, que não canto direito...Ela falou: "você não está fazendo aquilo que você diz no Divas que é ousar". E era verdade... Então, para mim, cantar foi uma ousadia. Agora eu estou fazendo aula de canto, enfim, estou me especializando.
Em que se diferencia seu livro de uma auto-ajuda comum?
O "Divas" foi baseado num projeto de pesquisa, foram quatro anos ministrando palestras, colhendo relatos, enfim, mil livros eu li antes de escrever. Eu, particularmente, odeio o termo auto-ajuda. Acho que auto-ajuda é aquela coisa mendigar...Além de ser muito subjetivo. Por exemplo, teve um garoto que foi assistir ao "Divas" e mandou um e-mail assim: "Achei o maior barato. Percebi que vocês mulheres são loucas!". E, no mesmo dia, recebi um e-mail de uma mulher que é advogada e que depois de assistir ao espetáculo e ler o livro, decidiu assumir o sonho dela, que era o de abrir uma escola infantil. Porque é disso que fala o "Divas": de você assumir sua verdade interior. E a arte é subjetiva, não posso dizer que meu livro é de auto-ajuda, que minha palestra vai te ajudar...De repente, você lê um Saramago e é sua auto-ajuda. Essa é a magia da arte.
Você não pretende dar o direito de resposta: falar sobre o universo masculino?
Muitas homens me perguntam por que eu não escrevo sobre eles e eu sempre digo: "sabe por que eu não escrevo sobre vocês? Porque vocês não falam!". Mulher não: abre a boca e fala tudo. Então, o dia que eles começarem a falar eu posso pensar em escrever um texto para eles (risos).